Ao exaltar a suspensão das hostilidades entre Israel e Hamas, que permitiu o retorno para casa de 20 reféns do grupo terrorista depois de 738 dias de cativeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou o cessar-fogo como “uma vitória do diálogo e um sinal de esperança”. Mas, conforme enfatizou, a distensão no Oriente Médio não altera a relação entre os governos brasileiro e israelense, nem abre a possibilidade de voltar a indicar um embaixador para Tel Aviv. Segundo Lula, “o Brasil não tem problema com Israel”.
“O Brasil tem problema com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Na hora em que Netanyahu não for mais governo, não haverá nenhum problema entre Brasil e Israel, que sempre tiveram uma relação muito boa. Não sei se o cessar-fogo é definitivo ou não, mas estou feliz porque é um começo muito promissor. O fato de o presidente dos Estados Unidos Donald Trump ter ido a Israel, ao Parlamento, e ter falado, é um sinal muito importante. Espero que aqueles que ajudaram Israel na sua posição de virulência agora ajudem a ter uma paz definitiva. Acho que todo mundo vai ficar feliz”, frisou Lula, em coletiva depois participar da abertura do Fórum Mundial da Alimentação 2025, em Roma.
O presidente foi considerado persona non grata pelo governo de Netanyahu, em fevereiro de 2024, depois de ter comparado as ações de Israel na Faixa de Gaza ao Holocausto. Foi em uma conversa com jornalistas em Adis Abeba, Etiópia, no encerramento de uma viagem à África, onde participou da Cúpula da União Africana. Por comparar o massacre de palestinos pelas forças militares israelenses ao extermínio dos judeus pelos nazistas na II Guerra Mundial, o ministro das Relações Exteriores de Israel, Israel Katz, informou ao então embaixador brasileiro no país, Frederico Meyer, de que Lula entraria para uma lista de desafetos do país até que se retratasse.
As relações entre Brasil e Israel se deterioraram com a humilhação que Katz submeteu ao diplomata brasileiro em um encontro no Museu do Holocausto (Yad Vashem), em Jerusalém. Meyer foi chamado de volta ao Brasil e, desde então, Brasília não tem embaixador naquele país. Depois da retirada do embaixador, Lula foi mais comedido nas críticas, apesar de sempre destacar de que havia um genocídio da população palestina — sobretudo de mulheres e crianças. A mais recente crítica do presidente ao conflito foi no discurso na abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas, em setembro. Disse que o que estava acontecendo em Gaza “não é só o extermínio do povo palestino, mas uma tentativa de aniquilamento de seu sonho de nação.” Ao condenar o Hamas, enfatizou que o direito de defesa de Israel “não autoriza a matança indiscriminada de civis” nem o uso da fome como arma de guerra.
Ainda na ONU, Lula reafirmou a posição do Brasil em favor da solução de dois Estados — “tanto Israel quanto a Palestina têm o direito de existir” — e argumentou que “trabalhar para efetivar o Estado Palestino é corrigir uma assimetria que compromete o diálogo e obstrui a paz”.
Bom sinal
Mas, para o presidente, a troca de reféns por prisioneiros palestinos — os israelenses devolveram 1.968 pessoas consideradas ameaças ao Estado judeu — é uma boa sinalização para o futuro da região. “Antes tarde do que nunca. Finalmente, parece que se encontrou uma saída para o conflito entre Israel e os palestinos. Me parece que há muitas possibilidades de o acordo ser definitivo. Acho que isso é muito importante. Não se vai devolver a vida dos milhões que morreram, mas se devolve, pelo menos, o direito de as pessoas dormirem tranquilas, sem medo de uma bomba, sem medo de um prédio cair. As pessoas não vão mais ser perseguidas. Uma coisa (a guerra) que não deveria ter acontecido, mas aconteceu. E que poderia ter sido resolvida mais cedo, mas não foi resolvida. Acho que foi resolvida agora. É motivo de alegria saber que o povo palestino e o povo de Israel vão viver em paz”, observou.
Segundo Lula, o cessar-fogo e a troca de reféns israelenses por prisioneiros palestinos abre a possibilidade de que aconteça algo semelhante entre a Rússia e a Ucrânia, cuja invasão pelas forças de Moscou aconteceu em fevereiro de 2022. “Se o mundo foi capaz de resolver talvez a questão de Israel, penso que está na hora de a gente começar, também, a pensar em resolver o problema da guerra da Ucrânia e da Rússia. Acho que é plenamente possível”, afirmou.
Correio Braziliense
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