Estudo assinado por Mandetta prevê aumento de casos de coronavírus no país

Estudo assinado por Mandetta prevê aumento de casos de coronavírus no país

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Ministro Henrique Mandetta

Relatório técnico publicado pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e outros especialistas brasileiros, nesta terça-feira (7), reconhece que o novo coronavírus se espalha de forma rápida no Brasil e prevê a circulação do micro-organismo até meados de setembro, com aumento expressivo dos casos de Covid-19 em abril e maio.

“Embora o Brasil esteja tentando implementar medidas para reduzir o número de casos, focado principalmente em isolamento social, uma elevação de casos de Covid-19 é esperado nos próximos meses. Muitos modelos matemáticos mostraram que o vírus tem potencial para circular até meados de setembro, com um importante pico de casos em abril e maio”, escrevem Mandetta e demais autores.

A principal causa para que esse pico ocorra é a chegada do outono, iniciado oficialmente no último dia 20. “Durante o outono e o inverno, a incidência de doenças respiratórias cresce (resfriado, gripe, ataques de asma, sinusite, pneumonia e bronquite), e, atualmente, a Covid-19 deveria ser adicionada a essa lista. O ar mais seco e temperaturas mais baixas podem levar a um aumento no risco de transmissão de coronavírus e no número de casos de Covid-19”, ressaltam no relatório.

Os autores, no entanto, não apresentam uma estimativa numérica de quantos casos da Covid-19 devem ser registrados, destacando que o Brasil tem uma série de características culturais e populacionais que devem fazer com que o vírus se espalhe de maneira diferente da que ocorreu em nações como China e Itália.

É importante notar que o Brasil tem características distintas e peculiares, incluindo a estrutura populacional. É um país cuja população consiste principalmente de jovens adultos. Em adição, comorbidades e coinfecções, como diabetes, hipertensão, HIV, tuberculose, obesidade, entre outros, são prevalentes. Por isso, é importante que a população mais jovem com comorbidades/coinfecções não seja negligenciada”, afirma um trecho da publicação.

Defesa do isolamento e críticas à OMS

É feita no relatório, também, uma defesa das medidas de isolamento social que restringem a oferta de vários serviços à população, sem que sejam tomadas medidas ainda mais agressivas, como a proibição quase completa de sair de casa (o chamado lockdown). “No fim de março de 2020, autoridades brasileiras ainda mantinham a recomendação de isolamento social e não haviam implementado um lockdown por meio do uso de forças de segurança para prevenir a movimentação em massa de pessoas. Se o distanciamento social for efetivo ao limitar o acesso do público a serviços essenciais apenas, o impacto econômico pode ser mitigado enquanto a epidemia de Covid-19 é controlada”, afirmam os autores.

O documento traz ainda uma crítica à demora da Organização Mundial da Saúde (OMS) em reconhecer a gravidade da situação. Segundo o relatório, em 27 de janeiro, a OMS admitiu um erro importante de avaliação. Até três dias antes, o risco do novo coronavírus era considerado apenas moderado pelo organismo ligado à ONU, embora a doença já fosse considerada de risco muito alto na China. “Isso pode ter dificultado medidas para implementar intervenções internacionais específicas em tempo hábil e pode ter resultado no aumento de casos na China e a disseminação da doença para outros países, incluindo o Brasil.”

A crítica expressa no documento já havia sido feita publicamente por Mandetta. O ministro cobrou repetidas vezes que a OMS reconhecesse a maior gravidade da Covid-19. E quando o órgão declarou estado de pandemia, em 11 de março, Mandetta disse que o anúncio havia demorado. “A OMS demorou para decretar a pandemia e isso fez com que muitos países ficassem procurando nexo para seguir um protocolo rígido, como foi o caso da Itália, que, quando percebeu, já tinha casos com espiral acentuada”, declarou na ocasião.

Intitulado COVID-19 in Brazil: advantages of a socialized unified health system and preparation to contain cases, o relatório foi publicado nesta terça-feira (7/4) na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical e tem como primeiro autor Julio Croda, especialista da Fundação Oswaldo Cruz e da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde.