Durante mais de seis décadas, o médico ginecologista e obstetra Wilson Baruki construiu uma trajetória ligada à história da saúde de Corumbá. Desde que chegou à cidade, em 2 de fevereiro de 1961, até os últimos anos de atividade profissional, Dr. Wilson acompanhou gerações de mães e filhos.
Nos primeiros anos em Corumbá, o médico encontrou uma estrutura de atendimento ainda em formação. Participou da organização da assistência obstétrica e da formação de parteiras, em um período em que a cidade ainda não contava com médicos de plantão na maternidade. A relação com a maternidade permaneceu mesmo depois da aposentadoria do serviço público. Dr. Wilson continuou atendendo em consultório e, em novembro de 2021, aos 86 anos, decidiu retornar aos plantões na maternidade depois do período mais crítico da pandemia de Covid-19.
“Eu tinha que voltar. Senti um dever cristão. As dificuldades que existem eu conheço e falei ‘eu tenho que ajudar’”, disse ao Diário Corumbaense na época. Vacinado e depois de avaliar que havia segurança para retomar a atividade, o médico voltou a trabalhar como plantonista e chegou a cobrir escalas de colegas. A decisão, segundo ele, foi tomada com o apoio dos filhos. “Estou muito feliz mesmo de estar trabalhando e sendo útil aqui. Meus filhos me dão muito apoio, são espetaculares. Eles concordaram e falaram ‘vai papai, essa maternidade sempre foi sua casa’”, contou na época.
Respeito e admiração
Em 2021, Anna Evelyn deu à luz um dia antes de o médico voltar aos plantões e ficou feliz em conhecê-lo: me trouxe ao mundo. Naquele retorno, a própria maternidade proporcionou um encontro entre diferentes gerações atendidas pelo médico. Duas pessoas que nasceram pelas mãos de Dr. Wilson estavam no local. Anna Evelyn Dantas Terrara de Souza Ibarra tinha dado à luz uma menina e contou que sua mãe havia sido atendida por ele.
“Minha mãe sempre comentou, dizendo que ele era um bom médico e dava atenção às pacientes. Fiquei surpresa e emocionada quando soube que ele ainda está trabalhando”, relatou ao Diário. Também estava na maternidade Joilson Jorge Arruda de Oliveira, que havia nascido pelas mãos do médico e acompanhava o nascimento da quarta filha, Eduarda Vitória. Ao reencontrá-lo, destacou a emoção de vê-lo com saúde e ainda atuando profissionalmente. “É um exemplo para todos de comprometimento com o que faz, uma referência para todos”, afirmou.
Legado
Dr. Wilson Baruki foi casado com Dinorah Wiechert Serra Baruki (falecida em 2019), com quem teve seis filhos. A medicina também permaneceu como um legado dentro da própria família. Um dos netos, o ortopedista Guilherme de Barros Baruki, contou que a trajetória do avô foi uma das influências para sua escolha profissional. Além da referência como médico, destacou os ensinamentos deixados pelo avô sobre família, fé e cuidado com o próximo. "Um exemplo de pessoa, ser humano, a fé, religião, passou de pai para filhos e netos."
O filho, Paulo Serra Baruki, médico pediatra, também seguiu a carreira. Ao falar sobre o pai, destacou a influência recebida desde a infância e a defesa de uma medicina acessível, princípio que, segundo ele, sempre esteve presente na trajetória de Dr. Wilson. "Fui inspirado a seguir os passos dele, luto pela causa da medicina acessível à todos, como ele sempre preconizou."
Aos 91 anos, Dr. Wilson continuava ligado à maternidade. Em 14 de setembro deste ano, recebeu uma das principais homenagens de sua trajetória: a Santa Casa de Corumbá deu seu nome ao Centro Obstétrico da instituição. Durante a cerimônia, foi descerrada uma placa em reconhecimento à contribuição do médico para a assistência obstétrica da cidade.
Na ocasião, ao recordar sua trajetória, Dr. Wilson fez questão de dividir o reconhecimento com os profissionais que trabalharam ao seu lado. “Essa homenagem é para mim, mas é para eles também. Porque eu não fiz sozinho. Eu fiz com todos os colegas”, afirmou. Ao longo de 66 anos de carreira, Dr. Wilson Baruki esteve presente no nascimento de milhares de crianças e acompanhou diferentes gerações de famílias de Corumbá e Ladário. Sua atuação ultrapassou o exercício da medicina e se tornou parte da história da assistência à saúde no município.
Aos pacientes, familiares, colegas e às gerações de médicos que tiveram nele uma referência, deixou também uma compreensão de medicina baseada no cuidado e na dedicação ao próximo. “O valor da gente é o valor que a gente dá para o próximo. Isso está nas palavras de Cristo. Se nós acreditamos em Cristo, acreditamos em nosso Deus, nós temos que atender ao próximo, seja em qualquer circunstância, nós temos que atender”, ensinou.
Com Diário Corumbaense
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